A excisão feminina, também denominada como mutilação genital feminina é, ainda hoje, uma realidade em muitos países de África e alguns da Península Arábica e da Ásia. A excisão é praticada de forma inquestionável pela população, principalmente pelas mães e pelas avós, que acreditam que estão a assegurar o futuro das mulheres na medida em que a excisão torna as mulheres puras, garantindo-lhes um marido/casamento.

A prática da mutilação genital feminina é anterior ao islamismo e ao cristianismo. No entanto, integrava a cultura e tradições da população daquela época. Um documento grego de 163 A.C. menciona que mulheres do Egipto eram submetidas à prática da excisão, o que sugere que tal procedimento tenha tido origem neste país, ao longo do vale do Nilo, na época dos faraós. Múmias encontradas recentemente mostram sinais de excisão que já eram executadas desde aquela época. Não se sabe, no entanto, como essa prática se disseminou entre outros grupos, passando a ser praticada por muçulmanos, cristão e animistas.

Estudos referem que devem existir entre 100 a 140 milhões de mulheres no mundo que sofreram mutilações genitais e estima-se que, só na Europa, aproximadamente 500 mil mulheres foram vítimas de mutilação genital, uma prática realizada sobretudo em famílias de imigrantes e refugiados, e que as raparigas chegam a ser enviadas ao país de origem para esse efeito.

A excisão ou mutilação genital feminina é um procedimento que consiste na amputação parcial ou total da parte externa da genitália, nomeadamente, clitoridectomia (ablação parcial ou total do clítoris) e da excisão (ablação do clítoris e dos pequenos lábios) - esta última representa cerca de 85 por cento das mutilações genitais femininas - até à forma mais extrema, a infibulação (ablação total do clítoris e dos pequenos lábios, bem como da superfície interna dos grandes lábios e sutura da vulva para apenas deixar uma pequena abertura vaginal) e a introcisão (punção, perfurações ou incisões do clítoris ou dos lábios).

Essa prática, considerada pela cultura ocidental uma violação dos direitos humanos e fundamentais que atinge a dignidade humana, foi perpetuada através da tradição cultural baseando-se em crenças irrealistas que desafiam o bom senso, a saúde e dignidade humana, tais como manter a limpeza e higiene, ajudar a ter boa saúde, preservar a virgindade, aumentar a fertilidade, prevenir a promiscuidade, criar mais oportunidade de matrimónio, ser estético, potencializar a performance sexual masculina e o seu prazer, promover a coesão política e social, ofende a integridade física e moral de diversas mulheres.

As consequências deste acto para a mulher são prejudiciais e irreversíveis, seja tanto a nível físico, como psicológico e sexual. Algumas mulheres morrem durante o procedimento da excisão, além de este poder causar infecções crónicas, sangramento intermitente, abcessos e pequenos tumores benignos no nervo, desconforto, extrema dor, pedras na vesícula e uretra, danos aos rins, infecções no tracto reprodutor devido a obstruções do fluxo menstrual, infecções pélvicas, infertilidade, tecido excessivo da cicatriz, transmissão do vírus da SIDA, risco de contrair tétano, morte da mulher durante/após o parto, morte do nascituro e alto risco de hemorragia e infecções pós-parto.

A mulher é privada de um desenvolvimento psicossexual e de uma vida sexual saudável, bem como do prazer sexual. A primeira relação sexual da mulher é muito dolorosa, sendo que a dor pode acompanhar durante a vida. Algumas mulheres também sofrem de ansiedade, stress pós-traumático, depressão, baixa auto-estima entre outros.

Na União Europeia a mutilação genital feminina constitui uma violação dos direitos das mulheres e das meninas e é proibida pelo direito penal dos Estados-Membros. Trata-se de uma violação dos direitos humanos fundamentais e de uma violação selvagem da integridade e da personalidade das mulheres e raparigas. Por isso, constituem um grave crime para a sociedade.

Este assunto deve ser discutido como um problema de saúde pública entre todas as culturas, inclusivamente, aquelas onde se pratica. A informação e a criação de estratégias integradas acompanhadas de programas educativos e de organização de campanhas de sensibilização nacionais e internacionais devem tornar-se uma realidade no combate a esta prática.