Actualmente a normalidade é definida pela norma estatística. Desta forma, o critério de normalidade baseia-se na incidência de dado comportamento sexual, dos padrões culturais e do período histórico. No entanto, durante muitos anos, as condutas sexuais raras ou invulgares foram consideradas “anormais”, “aberrações” ou desviadas. O termo científico Sexualidade Atípica ou Parafilia, que veio substituir estas terminologias baseadas em julgamentos morais, significa Atracção (Filia) ao lado (Para).

As parafilias são marcadas por fantasias recorrentes sexualmente excitantes, impulsos sexuais ou comportamentos sexuais que implicam, geralmente, excitação sexual como resposta a estímulos invulgares, tais como objectos não humanos, sofrimento ou humilhação do próprio e do seu parceiro, crianças ou outras pessoas sob coação. São acompanhadas de impulsos persistentes e recorrentes, que variam de intensidade, na maioria dos casos, são compulsivas ou de difícil controlo, tal como os adictos de drogas. Em alguns casos, isto é explicado devido à comorbilidade entre a parafilia e a Perturbação Obsessivo-compulsivo.

Para alguns parafílicos, o comportamento, os estímulos sexuais atípicos ou as fantasias parafílicas são o único meio de conseguir satisfação sexual ou excitação erótica. Tipicamente, a pessoa com parafilia reproduz o acto parafílico em fantasias sexuais para se estimular e excitar durante a masturbação ou nas relações sexuais. Noutros casos, as preferências parafílicas ocorrem apenas episodicamente, enquanto noutras ocasiões a pessoa é capaz de funcionar sexualmente sem as fantasias ou estímulos sexuais atípicos, sendo que, depois de algum tempo, a pessoa sente necessidade de viver a realidade de outro acto parafílico, flutuando entre diversos tipos de parafilia.

As parafilias estão classificadas entre as predominantemente não agressivas, em que existe o consentimento do outro e pouca ou nula agressividade, tais como vomerofilia, sinforofilia, gerontofilia, hibristofilia, autogonistofilia, infantilismo, fetichismo, travestismo, asfixia auto-erótica, manipulação uretral, sado-masoquismo, zoofilia, formicofilia, necrofilia, clismafilia, olfactofilia, misofilia, urofilia, coprofilia, vampirismo, escotofilia, narratofilia, crematistofilia e saliromania. Outras parafilias são consideradas predominantemente agressivas, quando não existe consentimento do outro, com presença de comportamento agressivo ou sentimento de agressividade pelo outro (desvios individuais patológicos), tais como exibicionismo, telefonemas obscenos, voyerismo, frotteurismo, pedofilia e stalking.

Não é clara a percentagem de parafilias na população geral, sendo que, com excepção do masoquismo sexual, todas as parafilias se manifestam quase exclusivamente nos homens (20♂:1♀).

Os estudos sobre as causas da parafilia não são conclusivos. De acordo com Abel (1995), o comportamento sexual atípico é desenvolvido em quatro fases: quando a criança é exposta a estímulos sexuais directos (contacto físico) ou indirectos (observar, ouvir), envolve um ensaio cognitivo do que foi experienciado com consequências imaginárias positivas ou negativas, passagem ao acto do comportamento, experimentando as consequências positivas e negativas e dependendo das consequências da experiência, o comportamento será repetido e variado ou modificado sendo reforçado.

Janssen (1997) e Bancroft (1998) defendem que existem marcadores biológicos específicos, tais como factores neurofisiológicos que diferenciam um parafílico de um comportamento sexual atípico. Aceita-se a teoria de que os factores causais são biopsicossociais, os comportamentos sexuais são auto reforçados pelo prazer nos pensamentos, rituais de antecipação, pela redução da ansiedade, diminuição dos sintomas depressivos e a gratificação e prazer na passagem ao acto.

Money (1989) desenvolveu um modelo teórico integrativo entre factores biológicos e psicossociais que envolvem o conceito de Love Maps, desenvolvidos na infância e formulados através de experiências sexuais neste período, estas experiências são cravadas na memória da pessoa (template), como também especula que os factores hormonais podem influenciar a susceptibilidade da criança.

Independentemente da causa, o comportamento atípico, no que diz respeito a sexualidade, deve ser considerada uma cultura específica. Trata-se da forma como cada pessoa vivencia a sua sexualidade. Desde que o mesmo respeite o outro e as leis vigentes, não pode ser considerado um problema. Em alguns casos o comportamento parafílico, principalmente o predominantemente agressivo irrompe a lei, subjuga e causa sofrimento ao outro ou para si próprio. Nestes casos, convém fazer uma avaliação e consequente terapia.