Antes de começar, gostaria de agradecer a organização das Jornadas pelo convite. Confesso que fiquei surpresa pelo convite por dois motivos, em primeiro lugar não sou psicanalista, embora seja uma grande simpatizante, logo não falaria sobre o inconsciente e pulsão e em segundo lugar minha comunicação estaria circunscrita no discurso do saber.

Quando o José Martinho (JM) me convidou referiu que poderia falar sobre o que a sexologia pode ter para dizer sobre homens e mulheres”, possibilitando que eu escolhesse o ponto de vista que entendesse melhor. Sugeriu também que eu fosse ao site da Antena do Campo Freudiano (ACF) ler as lições online sobre o tema das Jornadas (Homens, Mulheres e Psicanalistas).

Embora tenha pedido que eu preparasse uma comunicação sobre os homens e as mulheres, devido a um imprevisto logístico, o tema foi reformulado. Agora tentarei falar-vos sobre os homens.

Após ler as lições online e após a reformulação do tema, resolvi fazer uma apresentação bastante descontraída, onde misturo alguns conceitos da sexologia e disparates² pessoais, na tentativa de englobar o discurso do saber da sexologia.

Não deixo de achar curioso, o facto de um homem falar sobre as mulheres e uma mulher falar sobre os homens³. Será que essa leitura estará inerente de enviesamento? Se formos, de facto, diferentes, estarei a tentar descodificar uma linguagem da qual eu “não falo”. Destaco aqui o “não falo” como significante da minha comunicação.

O tema homem é muito vasto, teria que passar um mês a dissertar sobre o tema para então conseguir acabar uma possível introdução. Devido ao inesgotável assunto, resolvi tentar introduzir a fala da sexologia em alguns aspectos mencionados nas lições online do JM.

1º aspecto que gostaria de mencionar: “o tema é um sintoma do nosso tempo”.

Durante séculos os homens tentam discorrer sobre o amor, o homem, a mulher e a sexualidade. No entanto, a ciência passou mais tempo, até o relatório de Kinsey em 1948, a tentar desvendar a mulher e o matrimónio. Em termos histórico/científico⁴, conseguiram-se recuperar alguns textos⁵ antigos, datados da época medieval. Estes textos deixam claro, a existência de uma mistificação em volta da mulher, onde o tratamento para algumas mazelas do homem era o leite materno, urina de virgem etc. Praticamente o que curava o mal do homem eram os males das mulheres. Ainda nesta época os homens estavam atentos ao comportamento e desenvolvimento da mulher e chegavam a conclusões brilhantes, tais como: “a mulher não precisa de casar para ser mãe… a concepção advém da junção das sementes do homem e da mulher… o período fértil é logo após o sangramento… o prazer feminino é essencial para a fecundação”.

Na Idade Moderna os males dos homens passaram a ser adquiridos pelo consumo e ou desejo da carne da mulher, ou seja, as relações sexuais com prostitutas e o onanismo poderiam causar doenças graves de nervos, ISTs e até mesmo a loucura. Note-se que o comportamento do homem é justificado pelo outro, a mulher tem um papel de bode expiatório. Para o homem, a mulher ganha o lugar da sombra maléfica! A partir da Idade Moderna a mulher ganhou mais força no discurso do homem, algo que deveria ser estudado mais fundo. Este ser era um mistério que deveria ser desvendado. O desconhecimento era tão vigente que o ciclo menstrual da mulher era associado as fases da lua, seria o inexplicável que seduzia o homem? Ao mesmo tempo que o homem adquiria o desejo de desvendar a mulher, pairava no ar um conceito novo. Conceito este publicado em 1718 no livro “Conselhos sobre as agressões no amor venéreo” que sugeria que “… o calor do sangue inflamado pela agressão, exercida pelo homem em relação à mulher, aumenta e aquece o apetite sexual.” Sugere que para o homem, a mulher era o pecado/mal e que a agressão era permitida e poderia proporcionar prazer.

Já na Época Vitoriana, a ciência começou a ganhar força. No entanto, era uma ciência feita por homens, e quando propunham estudar o género masculino, tinham como foco principal de estudo, a prevenção e proibição da masturbação e o aumento da virilidade. O homem parecia estar mais direccionado a desvendar o ser feminino. A mulher nesta época tinha um tratamento VIP, tinha uma sessão semanal com o seu analista e outra com o seu médico para tratarem o paroxismo histérico. Ia a consulta do seu médico para que o mesmo a pudesse masturbá-la, após o orgasmo, dizia o médico, “após o tratamento ela terá uma semana de estabilidade, cura até o mal humor!”.

Eu tinha o propósito de falar sobre os homens, mas como podem notar até o advento da sexologia com Kinsey, Masters & Johnson (M&J), três grandes nomes da sexologia, a mulher era o assunto principal dos homens. A partir de 1948 o homem passou a ter destaque, aquando a publicação do Relatório Kinsey sobre “O Comportamento Sexual do Homem”. Após Kinsey, M&J, um casal de cientistas americanos, publicam estudos baseados em investigação laboratorial sobre a anatomia e fisiologia sexual do homem e da mulher. Com a sexologia, o homem e a mulher, passam a ter um lugar de igualdade no espaço do desconhecido.

Se esse tema é um sintoma actual? Sim, tenho a sensação que a mulher passou a ter um estatuto parecido ao do homem, estando este mais disponível para falar com as mulheres sobre elas e sobre si próprio. De certa forma, o homem perdeu o estatuto do saber absoluto e ao ser estudado ganhou falhas.

Terá o homem aprendido a ser empático com a mulher e abandonado a tentativa de descodificação partindo do seu ponto de vista?

2º Aspecto: “O homem é básico e a mulher é complexa”

Será esta afirmação fruto da ignorância e/ou incompetência do homem em entender a mulher?

A nível biológico sabemos que existem diferenças significativas relativas ao funcionamento cerebral e hormonal entre ambos os géneros.

Para além dessas diferenças biológicas, também existe a influência social dos papéis de género. Onde cada género tem um papel simbólico na sociedade e o cumprimento do mesmo é o desejável. Actualmente já existem pessoas com competência para exercerem funções relacionadas a ambos os géneros. Surgindo o termo androginia, que seria a formação de comportamentos e personalidade sem estereótipos e sim com um equilíbrio de traços masculino e feminino.

Na actualidade, ambos os géneros estão a aproximar-se sócio e culturalmente um do outro. Embora com grandes diferenças orgânicas que também condicionam o comportamento. Se acharem que ser básico é pensar mais em sexo e ter mais desejo sexual e ser complexo é envolver o desejo sexual com a satisfação e afectividade. Então os homens são mais básicos e as mulheres mais complexas.

Deixando de lado a frase quase popular, quando analisamos a Resposta Sexual masculina e feminina, também nota-se diferença. M&J propôs um modelo multifásico (EPOR) para explicar a Resposta Sexual Humana. Classificando às seguintes fases: Excitação, Planalto, Orgasmo e Resolução.

Após essa descrição de M&J, Helen Kaplan, na década de 70, acrescenta a fase de desejo antes da fase da excitação. Surgiu aqui o modelo DEO (Desejo, Excitação e Orgasmo). Sendo o Desejo em essência, uma experiência subjectiva, permitindo a cada sujeito uma vontade para engajar numa relação sexual.

Em 1998 Basson reformula o Ciclo de Resposta Sexual feminino defende que o ciclo de resposta sexual feminino é diferente do ciclo masculino pois: 1. a resposta sexual dos homens é mais influenciada pela componente hormonal (testosterona); 2. biologicamente, as mulheres possuem um desejo sexual mais instável; 3. o desejo sexual nas mulheres está muito dependente do contexto, uma vez que a manifestação biológica da vasoconstricção, da excitação e da estimulação, podem ser ou não eróticas para a mulher; 4. o orgasmo pode ou não acontecer e, quando acontece, pode apresentar várias formas.

O novo Ciclo de Resposta Sexual de Basson mantem os princípios básicos de Kaplan e de Masters & Johnson e a estes, acrescentou como 1º fase a estimulação, onde a mulher passa de uma situação de neutralidade e tem a possibilidade de procurar ou estar receptiva às relações sexuais (estimulo do parceiro, de variáveis psicológicas ou de um pensamento sexual [imaginação, fantasia e memória]). A autora caracteriza a última fase como a fase de intimidade emocional, que se traduz essencialmente na união, afecto, amor que se produz pelo julgamento de satisfação. Este modelo permite e assume variações conforme a idade e influências externas, tais como fadiga, stress e filhos.

Como podemos notar, ambos os géneros apresentam semelhanças e diferenças, se estas semelhanças e diferenças, se representam ser básico e complexo não podemos saber, apenas podemos atribuir significados. O funcionamento de cada género é natural e complexo em si mesmo.

3º Aspecto: “O homem tem como objecto de desejo uma mulher”

Este é um ponto que poderíamos passar muito tempo a falar. Algumas pessoas por piada dizem “ou um homem deseja uma mulher ao seu lado ou dentro de si”.

Piadas politicamente incorrectas a parte, devo dizer que, o objecto de desejo do homem também pode ser outro homem e isto não constitui patologia. Um homossexual continua a ser uma pessoa do género masculino, possivelmente igual a um heterossexual, excepto no seu objecto de desejo.

De facto a obrigatoriedade da junção entre um homem e uma mulher está definida apenas na reprodução, embora já tenhamos tecnologia para desviar isso.

4º Aspecto: O Falo

O JM coloca a seguinte questão em seu texto: “a biologia destruiu a ignorância e a ilusão atreladas ao falo?”

Eu diria que de certa forma destruiu a ignorância, mas o impacto sobre a ilusão foi pouco ou nenhum. Ainda hoje na sexologia me confronto com homens que procuram a minha consulta com o único objectivo de aumentar o tamanho do pénis. O tamanho do pénis está de tal forma enraizado em sua auto-estima e masculinidade que, por vezes, é difícil fazer com que o mesmo compreenda que o prazer da mulher não está relacionado com o tamanho do seu pénis.

Alguns homens até transparecem alguma admiração e/ou frustração quando descobrem que o orgasmo da mulher, pouco tem a ver com o pénis. Esse orgasmo tão misterioso, que ainda a pouco referi ter sido um tratamento médico, é conseguido pela estimulação directa ou indirecta do clítoris. Mais admirado fica o homem quando contempla a ideia de que o clítoris é maior do que o pénis do homem.

Existe todo um mercado na internet, e não só, sobre este tema. Basta digitar a frase “como aumentar o tamanho do pénis” que logo aparece uma série de páginas a demonstrarem estatísticas e instrumentos milagrosos.

Antes de chegar a consulta os homens já tentaram instrumentos, tais como, a bomba de vácuo e o pêndulo. Muitos possuem um tamanho de pénis perfeitamente mediano. No entanto, atribuem pouco significado ao que possuem e desejam algo mais poderoso, aquilo que vislumbra no seu imaginário.

A preocupação excessiva sobre o tamanho do pénis, inúmeras vezes provoca problemas de foro psicológico, tais como, isolamento social, baixa auto-estima, causando insegurança, ansiedade, e/ou até mesmo dificuldades sexuais, ao nível da ejaculação e/ou erecção.

Outro aspecto relacionado ao falo é o problema com a função eréctil do pénis, antigamente chamada impotência, actualmente definida como Disfunção Eréctil (DE). Quando o homem passa a ter problemas na erecção, passa por uma fase bastante complicada, a vida para eles de certa forma, quase perdem sentido. Dá a sensação que a vida depende da sua função eréctil. Recuso-me a acreditar nisso, pois caso contrário a sua função seria apenas a de reprodução. Como a sexologia revolucionou a ciência admitindo a possibilidade do prazer na sexualidade, acho que o homem perde a sua única forma conhecida de satisfação plena. A fase de adaptação do novo “eu sexual” é difícil e dolorosa.

A DE traduz a incapacidade mais ou menos completa de realizar o acto sexual. Ou seja, o homem perde a possibilidade da conquista íntima de uma vagina, perdendo também, no seu imaginário, a possibilidade de aproximação emocional e/ou afectiva de uma mulher.

Geralmente quando existe uma explicação orgânica como causa da DE, de forma geral é melhor aceite pelo homem, como justificativa do problema. Quando o homem recebe o diagnóstico com causa psicogénica associada, tende a desvalorizar a causa e os seus próprios sentimentos associados.

O homem transmutou-se durante os tempos, hoje, apresenta-se com uma máscara diferente. Diz-se estar mais atento ao prazer da mulher. Isso tornou a ejaculação num novo problema. “Até que ponto consigo dar prazer a minha parceira?” Passou a se preocupar com uma nova dificuldade sexual, chamada Ejaculação Prematura. Essa dificuldade apresentada no início do orgasmo e ejaculação com estimulação sexual mínima, antes, durante ou depois do coito, apresenta-se com a dificuldade de controlar a ejaculação quando o homem assim deseja.

O homem tem um tempo médio de atingir o orgasmo menor do que a mulher, e com o passar dos anos, o homem ficou preocupado em dar prazer a parceira/o, tendo assim, que aprender a controlar o tempo do orgasmo e ejaculação. Adquiriu características de “super homens” para dar prazer a uma mulher. Já não basta ter uma erecção extra rígida, é preciso reservar o orgasmo para o momento certo. O poder exercido durante a relação sexual não é representado apenas pelo falo, mas pelo que o falo pode ser.

Muitas mudanças aconteceram no decorrer dos séculos, actualmente, o homem preocupa-se consigo e com a parceira, mudou os hábitos de higiene e até mesmo o sexual, ganhou, inclusivamente,  o título de metrossexual. No entanto, não deixo de ouvir a seguinte frase em clínica: “O homem no seu íntimo, não quer conhecer a intimidade da mulher…”. Estará ainda ele preocupado apenas com o seu falo? Afinal é ele que o possui!

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1. Embora o Falo seja um termo que possibilite abranger simbolicamente diferentes significados, neste artigo está restrito ao órgão sexual masculino, o Pénis.

2. O termo disparate é utilizado aqui como alusão ao texto do Filipe Pereirinha publicado nas lições online da ACF.

3. Nas XV Jornadas do Centro de Estudos de Psicanálise o orador que discursou sobre as mulheres era do género masculino e a oradora (autora presente) que dissertou sobre os homens era do género feminino.

4. Embora o conceito de ciência actual não esteja adequado para a Época Medieval, entende-se aqui como científico, o conhecimento adquirido pela experiência e observação. Neste período o conhecimento médico estava cingido a uma visão mágica-religiosa.

5. Os textos Medievais foram encontrados em Praga. Os mesmos descrevem conhecimentos e verdades em relação a sexualidade, homens e mulheres adoptadas naquela época. Uma característica destes textos é que ainda não estavam presentes preceitos religiosos aos conhecimentos vigentes da época. Também estava presente a igualdade das mulheres e dos homens relativamente as direito de ter prazer e ter desejo sexual como parte saudável da sexualidade.