Crónicas

Por Margarida Maria

Há pessoas que surgem na vida das outras de forma incondicional. Nunca condenam e estão sempre lá quando é necessário; e sabem a diferença entre a crítica construtiva e a destrutiva. A minha Tia Luíza, uma incondicional na minha vida, era assim. Morreu no dia 22 de Dezembro e o meu caminho ficou mais árido.

Quando eu era criança queria ser como os meus amigos: queria ter primos e tios. Infelizmente os meus pais (pensava eu) eram ambos filhos únicos e tinha de me contentar com os meus muitos irmãos. Teria uns dez anos quando me caiu do céu, verdadeiramente aos trambolhões, um primo. Ainda por cima era um herói, medalhado em campeonatos de natação. Mas… se havia um primo, tinha de haver tios.

Por Margarida Maria

Um camarada de trabalho disse-me, num dia destes, que o que mais lhe pesa é não receber cartões de Natal. Mas acabou por admitir que, ele próprio, não os escreve.

Há hábitos que o tempo apagou, o que é triste. Num outro tempo, ainda antes da Internet, as pessoas escreviam-se, escreviam cartas e postais. Na época natalícia, bem como na Páscoa e no aniversário, lá chegava aquela sacada de envelopes, trazendo beijos, abraços, desejos e, sobretudo, o sentimento de que éramos importantes para os outros.

Hoje, no efémero e na voracidade da vida, telefona-se, mandam-se emails ou MMS ou SMS, ou eses e emes qualquer coisa que, no momento seguinte, são apagados, deitados ao lixo, como se a comunicação com o outro fosse momentânea e a sua importância também.

Por Margarida Maria

As minhas filhas insistiram para irmos – coisas de mulheres – beber um copo todas juntas. E assim, fomos, não sem antes passarmos num Centro Comercial para comprar umas calças para a mais nova. E, afinal, os copos ficaram por ali, não por causa da crise ou do preço das calças mas pela indefinição que se vive de afinal o que é e o quê.

Passo a explicar: a nossa ideia era ir a um bar, ouvir um pouco de música e, mais tarde, passarmos por uma discoteca onde (garantem elas!) passam música dos anos 80 para podermos «abanar o capacete» como naquela época se dizia. E já que era dia de santa festa, resolvi, eu também, contribuir e convidá-las para jantar fora.

Por Margarida Maria

Há muitos anos residente fora da sua terra Natal, a minha amiga Lígia visitava a família seis ou sete vezes por ano. Eram momentos de franca alegria e, na velha casa de seus pais, sentia que voltava ao lar. No seu quarto estavam os livros de infância, as bonecas com que brincara em menina, cadernos do tempo do Liceu. Por isso dizia que se sentia «em casa» e vivia «desterrada» na cidade onde trabalha há mais de 30 anos.

Pese embora o facto de ter passado já mais de metade da sua vida na cidade que a acolheu na adolescência, era na «sua» terra Natal que encontrava a comida favorita, a roupa de que gostava mais, as compras mais em conta, enfim, tudo o que havia de melhor estava lá. Mas era, sobretudo, a alegria com os irmãos e a Mãe. Ali, mesmo após a morte do Pai, passavam-se os natais, as páscoas, e até alguns dos seus próprios aniversários. Nestes, aliás, a ausência dos amigos era colmatada com jantares posteriores, porque o importante eram os laços familiares e a casa.

Mais curioso ainda, contou-me ela, com as lágrimas a caírem silenciosas pela cara a baixo, é que até mantinha cremes, escovas de cabelo e dos dentes, tudo na casa de seus pais, como se ali vivesse.

Por Margarida Maria

Vi, num dia destes na comunicação social, o elogio a um homem que encontrou 2.100 euros num saco de plástico numa passadeira da rua Dr. Alberto Souto, em Aveiro, e telefonou a um polícia para entregar o achado. Mais elogiado era o homem, um bancário reformado, porque teria direito a uma recompensa de cerca de 50 euros e não quis receber nada.

Tenho de confessar o meu espanto. É sabido que os políticos em Portugal não são do mais sério que há, mas não se me afigura que, apesar de serem eleitos pelo povo, este mesmo povo seja maioritariamente desonesto.