Por Margarida Maria

No dia 20 de Outubro o ditador líbio Muhammar Kahdafi foi assassinado. De facto, de uma forma muito clara, o ditador foi assassinado. Assim mesmo! Afinal, quem o matou tornou-se igual ao antigo presidente da Líbia.

Pode-se ter ou não gostado de Kahdafi e das suas políticas. Na minha opinião ele era um ditador e todos os ditadores devem ser destituídos. Mas há coisas que me chocam em toda esta história.

Como é que países que promoveram Muhammar Kahdafi, como a Alemanha e os Estados Unidos, só muito recentemente se deram conta da situação que se vivia na Líbia? Quem «criou» Kahdafi, como quem «criou» Sadam Hussein ou mesmo Osama Bin Laden? Não foram as superpotências que os criaram no intuito dos negócios de petróleo? Não foi o petróleo quem «reinou» todos estes anos? Jornalistas especialistas em Política Internacional chamam-me «inocente». Mas eu prefiro este estatuto ao de hipócrita.

Mas, sobretudo, o que me chocou foram as imagens passadas e repassadas nas televisões e na Internet com os avisos de que continham imagens chocantes.

Sou de um tempo em que a dignidade e os Direitos Humanos não eram palavras vãs. Se eu fosse director de Informação de um canal televisivo garanto que aquelas imagens não teriam passado. Censura? Não! Respeito pelos Direitos Humanos. Como se pode acabar com o pouco que resta da dignidade quando se põe um homem (e não importa que seja Muhammar Kahdafi ou Pinochet) a implorar para que não o matem diante desta aldeia global?

Portugal foi dos primeiros países a abolir a pena de morte. Muitas vezes se fazem apelos para esta revogação. Eu sei que se alguém fizesse mal às minhas filhas eu queria esse alguém morto, de preferência às minhas mãos. Mas isso não é Justiça; é vingança.

E que, de uma vez por todas, se faça essa distinção. O que foi feito contra Kahdafi foi um terrível caso de vingança popular (ou não). O homem devia ter sido julgado e condenado. Pelo menos Sadam teve esse direito, ainda que as imagens que correram mundo o tenham mostrado no papel de louco que, afinal, foi sempre toda a sua vida. Só que, num outro tempo, a sua loucura serviu os chamados países civilizados.

Muhammar Kahdafi foi assassinado. O mundo assistiu a tudo. A ONU reclama agora inquéritos e os líderes ocidentais manifestaram regozijo, ainda que depois tenham vindo, timidamente, dizer que não estavam tão satisfeitos assim e que manifestavam esperança no povo líbio.

Como se não soubessem o que vai acontecer de seguida, o que aconteceu no Irão e no Iraque. Mas, de facto, como dizem os jornalistas especialistas em Política Internacional, o que importa é que o petróleo continue a jorrar e os petrodólares circulem por aí, de preferência na mão de quem se deixe manipular. Se não for assim, mais dia, menos dia, outro ditador ou até um democrata, pode ser assassinado…