Por Margarida Maria

Vi, num dia destes na comunicação social, o elogio a um homem que encontrou 2.100 euros num saco de plástico numa passadeira da rua Dr. Alberto Souto, em Aveiro, e telefonou a um polícia para entregar o achado. Mais elogiado era o homem, um bancário reformado, porque teria direito a uma recompensa de cerca de 50 euros e não quis receber nada.

Tenho de confessar o meu espanto. É sabido que os políticos em Portugal não são do mais sério que há, mas não se me afigura que, apesar de serem eleitos pelo povo, este mesmo povo seja maioritariamente desonesto.

De facto, vejo muitas vezes as pessoas a entregarem coisas que encontram ou a chamarem alguém que deixou cair alguma coisa, sem dela se apropriarem indevidamente. Tenha-se em vista o facto de os Perdidos e Achados das polícias estarem cheios de objectos que foram entregues por alguém e até nem foram reclamados pelos legítimos proprietários.

Assisti, há anos, a leilões no Instituto de Medicina Legal de bens que ali ficavam sem que as famílias dos defuntos os reivindicassem. Mas nunca soube de funcionários daquele organismo que tivessem roubado alguma coisa. E a verdade é que esses leilões não são feitos com objectos de baixo valor: são anéis, colares, relógios, fios em ouro e tantas outras jóias que alguém usou em vida e ficaram perdidos na morte.

Mas estou a desviar-me do que aqui, verdadeiramente, me trouxe: o elogio a quem cumpriu com o seu dever e a sua obrigação.

O cidadão, bancário reformado, encontrou 2.100 euros e devolveu-os. Foi por isso elogiado publicamente. E questiono-me: por ter cumprido o que mandam as mais elementares regras de civismo? Por não ter ficado com o que não lhe pertencia?

Podia ter ficado com dinheiro? De facto, podia. E a sua consciência? Teria ficado em paz? A quem teria feito falta aquele dinheiro?

Se a honestidade já é motivo de elogio, estamos mal. A mim, sobra-me a certeza de que os jornais deviam estar cheios de boas notícias, em lugar das tradicionais «Ladrão que roubou…», «Apanhado gatuno que…», «Preso por…».

Porque, apesar de tudo, ainda acredito que este País em crise tem muito mais gente séria do que aquilo que se quer fazer crer.