Por Margarida Maria

Há muitos anos residente fora da sua terra Natal, a minha amiga Lígia visitava a família seis ou sete vezes por ano. Eram momentos de franca alegria e, na velha casa de seus pais, sentia que voltava ao lar. No seu quarto estavam os livros de infância, as bonecas com que brincara em menina, cadernos do tempo do Liceu. Por isso dizia que se sentia «em casa» e vivia «desterrada» na cidade onde trabalha há mais de 30 anos.

Pese embora o facto de ter passado já mais de metade da sua vida na cidade que a acolheu na adolescência, era na «sua» terra Natal que encontrava a comida favorita, a roupa de que gostava mais, as compras mais em conta, enfim, tudo o que havia de melhor estava lá. Mas era, sobretudo, a alegria com os irmãos e a Mãe. Ali, mesmo após a morte do Pai, passavam-se os natais, as páscoas, e até alguns dos seus próprios aniversários. Nestes, aliás, a ausência dos amigos era colmatada com jantares posteriores, porque o importante eram os laços familiares e a casa.

Mais curioso ainda, contou-me ela, com as lágrimas a caírem silenciosas pela cara a baixo, é que até mantinha cremes, escovas de cabelo e dos dentes, tudo na casa de seus pais, como se ali vivesse.

Na cidade que a acolheu, Lígia tem casa sua, comprada, ali casou duas vezes, criou os filhos e trabalha. Se tem sido feliz? Confessa que sim e que, juntamente, com alguns amigos, criou uma «rede» em tudo semelhante a uma família. Mas o recarregar de baterias foi sempre feito na casa de seus pais onde os cantos, os objectos, tudo a remetia a uma infância por demais feliz.

Há dois anos a mãe de Lígia decidiu vender a casa que construiu com o marido quando os filhos eram muito pequenos. Lígia aceitou a ideia de que a Mãe precisava de mais conforto e aquela casa antiga já não tinha condições que permitissem a qualidade de vida a uma senhora octogenária e sozinha.

Foi assim que a mudança se fez e a minha amiga abriu mão do seu tempo para ajudar a desfazer a casa de seus pais. O processo acabou por se revelar muito doloroso e em cada regresso vinha mais triste. Trazia fotografias, livros, caixinhas de «tesouros», pedras que lhe recordavam este e aquele passeio, lembranças de namoros de adolescência...

Finalmente tudo ficou pronto. A Mãe mudou de casa e Lígia passou com ela as primeiras noites. Depois regressou ao trabalho. Até ao dia em que voltou à terra Natal. Desta feita, não para casa dos pais, mas para a casa da Mãe. Faltava-lhe o seu quarto, a sua casa de banho, o seu ambiente. Faltava-lhe o seu espaço, a sua infância, a sua adolescência. E ficou mais triste.

No regresso à cidade do «desterro», encontrou a sua própria família.

Mas as circunstâncias da vida ditaram que tivesse de voltar à casa da Mãe. Veio para o «desterro» mais cedo do que o previsto. Não aguentou sentir-se estranha na sua terra, numa casa que não sentia ser a sua.

Quando entrou na rua da sua residência vieram-lhe as lágrimas aos olhos. Meteu a chave à porta, sentiu profundamente os abraços dos filhos, entrou no seu quarto e sentou-se na sua cama dando livre curso à sua tristeza. Mas no mais fundo do seu coração sentiu uma centelha de alegria. Desta vez era ao contrário: sentiu que voltava a casa. Mais de 30 anos depois de ali viver, a terra de «desterro» era, enfim, sua. Percebeu que, finalmente, estava a crescer, a deixar para trás as coisas de que gostava mas não aqueles a quem ama.