Por Margarida Maria

Um camarada de trabalho disse-me, num dia destes, que o que mais lhe pesa é não receber cartões de Natal. Mas acabou por admitir que, ele próprio, não os escreve.

Há hábitos que o tempo apagou, o que é triste. Num outro tempo, ainda antes da Internet, as pessoas escreviam-se, escreviam cartas e postais. Na época natalícia, bem como na Páscoa e no aniversário, lá chegava aquela sacada de envelopes, trazendo beijos, abraços, desejos e, sobretudo, o sentimento de que éramos importantes para os outros.

Hoje, no efémero e na voracidade da vida, telefona-se, mandam-se emails ou MMS ou SMS, ou eses e emes qualquer coisa que, no momento seguinte, são apagados, deitados ao lixo, como se a comunicação com o outro fosse momentânea e a sua importância também.

Compreendo a tristeza do meu camarada de trabalho já que tenho amigos com quem me correspondo sempre e de quem recebo cartas assiduamente. Tenho, aliás, um amigo que vive nos Açores e com quem me correspondo há mais de 30 anos. Se, um dia, alguém quiser fazer a história das últimas décadas daquela região autónoma, passar pelas cartas do meu amigo, que ainda por cima é um professor primário na reforma, é imprescindível. Cada carta tem mais de dez páginas e ali se contam desde os tremores de terra às esperanças nas marés e no turismo, desde os que partiram para as Américas até aos netos que lhe foram nascendo, desde a baleia que deu à costa até à mais ínfima racha nova na Igreja da ilha vizinha…

Tenho-as por ordem e, de vez em quando, não resisto a reler esta ou aquela que me tocaram particularmente. Também é verdade que ao longo de todos estes anos não houve Natal ou aniversário em que eu não recebesse o postal respectivo, a sua forma de mostrar que esteve sempre presente na minha vida. Não posso deixar de dizer que tudo isto é recíproco: eu escrevo-lhe todas as semanas e nas datas estou a marcar presença, a dizer-lhe que gosto muito dele e que ele é muito importante para mim.

Amanhã é o dia de eu escrever. Porque amanhã é o domingo antes do Natal e é o dia de eu dizer aos meus amigos que os trago no coração sempre, mas nestes dias em particular. E daqui a muitos anos, ao abrirem a minha arca de madeira, as minhas filhas, os meus netos, quiçá os bisnetos, saberão quem gostou muito de mim. Claro que, como diz o meu camarada de trabalho, quando desapareceres, vai tudo para o lixo ou para queimar. Talvez sim, mas o que eu já tenho e tive, sinto e senti, ninguém me pode tirar. E, se não for tudo destruído, pode ser que um meu descendente qualquer venha a perceber quem eu e os meus amigos éramos e, sabe-se lá!, se nesse momento não vai ter, também ele, vontade de escrever uma carta ou um postal para e3ternizar os momentos importantes.