Por Margarida Maria

Há pessoas que surgem na vida das outras de forma incondicional. Nunca condenam e estão sempre lá quando é necessário; e sabem a diferença entre a crítica construtiva e a destrutiva. A minha Tia Luíza, uma incondicional na minha vida, era assim. Morreu no dia 22 de Dezembro e o meu caminho ficou mais árido.

Quando eu era criança queria ser como os meus amigos: queria ter primos e tios. Infelizmente os meus pais (pensava eu) eram ambos filhos únicos e tinha de me contentar com os meus muitos irmãos. Teria uns dez anos quando me caiu do céu, verdadeiramente aos trambolhões, um primo. Ainda por cima era um herói, medalhado em campeonatos de natação. Mas… se havia um primo, tinha de haver tios.

Soubemos então que as vicissitudes e os mal-entendidos da vida tinham afastado o meu Pai da sua única irmã e havia muitos anos que não se falavam. Foram muitas as estórias que se contaram e muitos contos com pontos acrescentados.

Até que chegou a Revolução de Abril e a descolonização. De Angola vieram os meus tios e todos os meus primos (ufff! Finalmente tinha tudo o que os meus amigos tinham!) e eu ganhei a parte da família que me faltava.

Foi num Natal que eu vi os meus tios entrarem em casa de meus pais. Não esquecerei nunca o abraço dos dois irmãos e o tom emocionado do meu Pai salvando-a com simplicidade: «Olá Luíza!»

Soube, então, que de mim a Tia Luíza ouvira dizer que tinha em Portugal Continental uma sobrinha que era mais parecida com ela do que algum dos filhos conseguia ser. «Até de feitio e na malandrice!», alardeara o meu Avô numa ida a África.

E ali estava minha Tia Luíza, com quem eu tantas vezes sonhara, que eu secretamente admirava, mulher de fortes convicções, capaz de enfrentar este mundo e o outro por aquilo em que acreditava, senhora de uma paixão e um amor sem limites. De armas!

Vivendo em cidades diferentes, fui eu quem acabou por vir para Lisboa onde os meus tios viviam a «saga dos retornados» em hotéis e com as dificuldades do período que se viveu em Portugal na segunda metade da década de 70 do século passado.

Mas foi exactamente aí que eu me encontrei de vez com a minha Tia Luíza. Porque passou a ser tudo eterno, naquele amor profundo e incondicional. A verdade é que fizesse eu o que fizesse, nunca a Tia estava contra mim. «Quero que tu sejas feliz!», dizia-me sempre. E esteve do meu lado quando adoeci, quando tive um acidente que me deixou meses hospitalizada, quando as minhas filhas nasceram, quando me casei e divorciei, e casei e divorciei, e casei e divorciei… Permissiva? Nunca. Isso era coisa que a minha Tia Luíza nunca foi. Crítica feroz, de dedo em riste, apontando bem ao meu nariz, ela ralhava, vociferava, exaltava-se. Ou agarrava-me e beijava-me, e abraçava-me, e chamava-me «minha» sobrinha com aquela entoação que eu utilizei mais tarde quando, em brincadeira, os meus primos diziam «é a mãe» e eu respondia: «A Tia é MINHA!»

Mas nada ali era definitivo excepto o facto de ela me amar incondicionalmente. Tão sem condições que me dizia: «Estarei sempre contigo e do teu lado. Mesmo que não concorde». E foi, de facto, assim que vivemos. Com respeito, com amor. E sempre que eu fazia alguma coisa que a minha Tia não concordava, sabia que, se corresse para o torto, ela estava ali, do meu lado, pronta a limpar-me as lágrimas e as feridas. Incondicionalmente.

Foi assim, até dia 22 de Dezembro. Fui (sou) uma sobrinha de sorte. Quanta gente não há que passou uma vida inteira sem uma pessoa incondicional na sua vida? Na minha, estará sempre a MINHA Tia Luíza.