Por Margarida Maria

Há plantas que resistem a tudo, como se fossem Amizades eternas, resistentes. Vem isto a propósito de uma planta que me foi oferecida por uma amiga há meia dúzia de anos. Cresceu sempre e alegrou o meu quintal com flores maravilhosas. Sempre a cuidei com todo o carinho, como se da minha amiga, de já muito longa data, se tratasse.

Em determinada altura das nossas vidas, por motivos que nos eram alheios mas que, de algum modo, nos tocaram às duas, houve um afastamento. Ambas queríamos impedi-lo, mas a verdade é que alguma coisa esfriou entre nós e só a (boa, desta vez) teimosia em contrariar a tendência nos obrigava a telefonemas, quase tímidos, para sabermos como ambas estávamos, intuindo que tanta coisa ficava por dizer.

 

 

Uma gata herbívora chegou e ocupou espaço no coração e na casa. E, aos pouco, não percebendo ainda como, verifiquei que a planta desaparecia. As flores não conseguiam rebentar, as folhas apareciam semi-ratadas.

Estabelecendo paralelismos, tudo fiz para salvar a planta, como se ela fosse a Amizade que me unia a minha amiga. Comprei produtos, pensando em lagartas e formigas, em todos os animais que se aproveitam desta cadeia alimentar que é o nosso mundo. Até ao dia em que apanhei a gata em flagrante delito, comendo o que restava da minha preciosa planta.

Utilizando a parte de cima de uma gaiola de pássaro, cujo habitante morrera vítima dos frios do Inverno, tapei o vaso, esperando que a planta voltasse a rebentar. A terra secava, eu regava, as ervas daninhas cresciam e eu arrancava-as, e até adubei o vaso cheio de terra e nada mais.

O tempo, entretanto, passou. Aos poucos, a minha amiga e eu retomamos as nossas longas conversas, falamos do nosso afastamento e concluímos que, por certo, nada nem ninguém poderá impedir-nos de sermos irmãs.

Até que, há dois dias, arranjando o meu quintal e precisando de terra para um outro vaso, tirei a rede que protegia o vaso da minha felina e propus-me utilizar aquela terra de outra forma.

Mas bem no meinho, centrando o círculo feito pelos rebordos do vaso, lá estava uma folhinha a querer rebentar. Uma folhinha igual a tantas outras que eu vi crescer ao longo desta meia dúzia de anos. Recoloquei a terra, reguei a planta, voltei a pôr a rede que, em tempos, foi parte da gaiola do pássaro, e tenho estado a observar o crescimento da minha planta.

Sei que, por muito distante que, aparentemente, tenha estado a nossa amizade, ela será como a planta que conseguiu renascer do quase nada. E digo quase, porque alguma coisa ficou. Tal como ficou sempre o afecto indestrutível que (teimosamente) insistimos em não deixar morrer.

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