Por Margarida Maria

Somos observadores na vida. Vemos o que os outros fazem e até comentamos. O que muitas vezes não pensamos é que também nós somos objecto de observação dos outros. E isso seria importante também para o bom funcionamento do mundo. Termos a atitude certa é essencial, porque, num qualquer dia, seremos nós os observados. E isso acontece quando menos esperamos.

Tirei a carta tardiamente. Por isso, andei, durante muitos anos, em transportes públicos e, do meu lugar elevado, no autocarro eu era a observadora de tudo o que se passava nos automóveis. Vi pessoas que se acariciavam, outras que dormiam no chamado «lugar do morto», outras que limpavam o nariz, outras ainda que se maquilhavam.

Teci considerações e até escrevi sobre estas atitudes que me pareciam, talvez, despudoradas. Admiti que, em circunstâncias semelhantes, seria incapaz de fazer as mesmas coisas e, quando seguia no tal «lugar do morto» tinha o cuidado de me comportar muito bem, na expectativa de poder ser observada por alguém sentado em plano mais elevado.

Como referi, um dia tirei a carta. Farta, muito farta, dos «cuidado!», «mete a mudança!», «encosta-te mais à direita!», decretei a minha independência e comprei um carro. Pequeno, modesto, lindo, mas um carro onde ninguém de desse indicações gritadas que eu sentia não precisava e me enervavam. Comprei pois o «meu» carro e senti que adquiria também um espaço meu, onde a minha intimidade seria inviolada. Estava longe de pensar que continuava a estar num plano menos elevado, porque me sentia no «meu» lugar, como se fosse a minha casa. Afinal, é o «meu» carro.

E tenho consciência de que mexo no cabelo, tiro um lenço para limpar a transpiração nos dias de maior calor, bebo água da garrafa que trago sempre comigo…

Num dia destes senti comichão num joelho. Levantei a saia e cocei o joelho. Pouco depois, senti a alça do soutien descair e meti a mão na camisola para a pôr no sítio. Foi, então, que olhei para o lado, onde um homem, no plano elevado de um autocarro, me observava naquela minha atitude de intimidade.

Senti-me corar, tentei disfarçar, mas o autocarro arrancou e eu percebi que o homem tinha visto o que eu fazia, sem, contudo, violar o meu espaço que estava, tão-somente, no seu horizonte visual.

E percebi tudo. Mesmo que a rua esteja deserta, devo caminhar como se ela estivesse cheia de gente, mesmo que ao meu lado não haja um autocarro, devo agir como se só houvesse planos elevados em meu redor. Porque facilmente se passa de observador a observado. Somos peões e somos condutores, somos passageiros de automóveis e de autocarros. Somos uma quantidade de coisas em simultâneo e temos de nos ver na nossa pele e na pele de todos os outros.

Cansativo?, sem dúvida, mas o nosso único espaço inviolável é a nossa casa e, mesmo assim, cuidado com os vizinhos…