Por Margarida Maria

Há precisamente um ano morreu um grande amigo. O João Aguiar foi escritor, jornalista e, sobretudo, um grande amigo, daqueles que nos elogiam e consolam, mas também nos dão «nas orelhas».

Dou-me conta que passou um ano sobre aquela manhã de 3 de Junho em que nos telefonaram a dizer que o João tinha partido. Na véspera ele ainda sorria, o olhar meio vazio, a mão magra (muito magra) na do Quim, seu companheiro de vida de mais de 40 anos. E nós, os amigos, impotentes diante do que sabíamos ser uma perda imensa, porque o João não tinha um lugar em nós; ele era um lugar.

Não vou mencionar as imensas reportagens, editoriais, crónicas ou artigos de opinião, nem as duas dezenas de romances e séries de televisão destinadas ao público mais jovem. Não vou falar do facto de ter sido um dos cultores em Portugal do chamado romance histórico.

Não falo de nada disso, porque tudo foi dito e redito por alturas da sua morte. Aliás, num dos seus imensos momentos de ironia (e que fina ela era), em autobiografia, ele escreveu: «A minha vida não dava um livro, e ainda bem. Em compensação, o facto de os meus livros darem uma vida - boa ou má, não importa para o caso -, esse facto devo-o, em grande parte, aos momentos de não-glória que acabo de relatar. E estou-lhes muito grato».

Vou antes falar do João, que era um homem bom, de princípios, de uma ética à prova de tudo, de uma grande exigência em tudo o que fazia, na escrita e na vida, implacável até.

Nós, civilização europeia, temos dificuldade em lidar com a morte, como se ela não fizesse parte da vida. Talvez porque tenhamos medo, ou porque a nossa fé não é tão inabalável como cremos, ou porque temos consciência de que não estamos a viver bem.

Sei lá, o que sei eu? Sei que há um ano o sofrimento brutal do nosso João parou e chegou o tempo de, na sua ausência, ouvirmos o silêncio. Para sempre!