Por Margarida Maria

Numa breve estadia no hospital com uma filha, vi homens e mulheres à espera na zona própria do bloco operatório. Eles conversavam entre si sobre as mais variadas coisas, desde política a futebol. Elas falavam dos seus que estavam a ser operados, ou remetiam-se ao silêncio.

Não sou pai. Sou mãe. Não sei como os pais reagem à dor dos filhos. Mas sei como regem as mães.

Nesse dia percebi a diferença entre as mulheres que tinham no bloco operatório pais, irmãos, outros familiares, ou os filhos.

É que as mães mantinham-se em silêncio, o silêncio de quem sente o corte na sua pele, na sua carne, de quem sente uma cirurgia que está a ser feita num filho. Em todas era visível uma dor maior, um sentir de dor que é Amor.

No meu silêncio percebi o silêncio de duas mulheres sentadas ao meu lado. Começaram por falar das maleitas dos filhos. Uma das crianças ia ser operada ao apêndice e a outra era um problema ortopédico. Explicaram o que se passava com os respectivos filhos. E o silêncio caiu entre elas, a tensão (possivelmente a mesma que eu estava a sentir, com a milha filha na mesa de operações) estava estampada nos seus rostos, no seu comportamento, na sua postura.

Do outro lado, uma mulher falava da mãe, de muita idade, que tinha caído e feito uma fractura do colo do fémur. Uma outra respondeu, até porque estava ali por uma razão semelhante, mas com o pai. E conversaram sobre as cirurgias e passaram ao seu carinho pelos pais, e ao trabalho que dão os velhos, e aos lares de terceira idade, e às recordações de infância. E as palavras fluíam com grande naturalidade, sem pausas nem interrupções, com o nervoso a obrigar à catadupa de conversas sem cessar.

Entre estas mulheres e as que se sentavam ao meu lado havia todo um mundo de diferença. As conversas que ajudam a combater o stress e a inquietação, e o silêncio de quem sente o corte que fazem aos filhos na sua própria carne.

Não são amores menores, são somente diferentes. Porque de cada vez que alguma coisa acontece ao filho, as mães sentem-no em si. Elas rejubilam com as alegrias e sentem como suas as tristezas e as dores.

Por isso, esta crónica é só isso: uma conversa entre mães.