Por Margarida Maria

É verdade, tirei a carta de condução já tinha 44 anos. Durante anos a fio, na minha adolescência, os meus pais preocuparam-se em que eu fizesse essa parte da educação, à semelhança do que sucedeu com os meus quatro irmãos. Nada. O meu grau de distracção era tão grande que, um dia, passei pelo meu Pai na rua, dei-lhe as boas tardes e segui o meu caminho, questionando-me de onde conhecia aquele senhor.

Ao longo dos anos, fui percebendo que não podia aprender a conduzir: uma mosca, uma folha de árvore, um pássaro eram mais do que suficientes para eu me abstrair. Por duas vezes quebrei os ossos próprios do nariz, uma vez num poste de electricidade que se desviou para o meu caminho, e outra numa árvore que se atravessou no meu trajecto.

A verdade é que quando começo a pensar numa coisa a visualizo e deixo de ver o que se encontra à minha frente.

Os anos foram passando, casei-me e divorciei-me, tive filhas, e juro que os meus esforços foram compensados porque nunca perdi nenhuma no supermercado. Sempre trabalhei muito, mas todos sabem que quando me concentro numa coisa, nem ouço ou vejo seja o que for. E, sobretudo, quando escrevo ou leio, fico irritadíssima se sou interrompida.

Um dia resolvi-me. Tinha 43 anos e estava na idade de tirar a carta de condução. Afinal fui sempre uma mulher sozinha, livre e independente e um carro podia fazer-me jeito. Sei lá! Talvez até fosse uma outra forma de cultura. Por isso, tomei a decisão de aprender a conduzir, sendo certo que se passasse no exame, ainda bem, mas se não passasse não iria repeti-lo. Afinal, o que eu pretendia era conhecer essa outra cultura.

Contudo, como sou sempre muito empenhada nas coisas que faço, estudei afincadamente, apliquei-me com muita vontade e lá fiz o Código. Passei à primeira. Seguiu-se o exame de condução e eu fi-lo de imediato. Fiquei muito contente e até foi bom porque havia um outro motivo de riso e humor: todos diziam que, quando eu saísse à rua, tinha de avisar com antecedência para esvaziar o espaço. Havia um perigo à solta!

Já lá vão alguns anos, sou criteriosa e atenta à estrada, aos peões, aos outros carros. Aliás, percebi que não tenho de ter cuidado com a minha condução, mas com a dos outros. Há, na realidade, muitos criminosos nas estradas: eles são os peões que atravessam a rua fora das passadeiras quando há um local próprio a dez metros de distância, ou que andam pela rua em lugar de irem pelos passeios, ou saem a correr de onde menos se espera; e eles são os condutores que não sabem para o que servem os piscas, os quatro piscas, os traços contínuos e até os sinais de trânsito proibido

Noto, sobretudo, que os jovens condutores, alheados da realidade que os rodeia, indiferentes às campanhas anti-álcool, com as cabeças no ar, giram por essas ruas e estradas nos carros dos pais, certos de que não os pagaram, nem aos seguros competentes. Não lhes custou nada. Acabaram de tirar a carta e o pai, o avô, o tio, ofereceu-lhes um carro e outro alguém, quiçá a mãe, a avó ou a tia, pagam o seguro. Tudo muito bem. Nada de chegar aos 44 anos e tirar a carta e comprar um carro com o fruto do seu trabalho. E é vê-los, alegremente, aos 18, 20, 25, 30 e por aí fora, desempregados, livres, em casa dos pais, dependendo deles e gastando até a gasolina que lhes pagam. Conheço muitos assim…

E vem isto a propósito de um jovem de 20 anos que saiu do seu estacionamento em espinha e veio contra o meu carro. Supremo descaramento, sai do carro e diz: «A senhora viu o que fez?»

Nem dei tempo a mais conversa e declarei que queria chamar a polícia. O rapaz que não, que não valia pena, que tinha de se pagar… E eu que sim, que chamávamos a polícia porque não ia discutir com ele aquela situação, que era, aliás, indiscutível.

Finalmente, o jovem ligou ao pai, que lhe recomendou que assinasse os papéis e se desse como culpado. Assim foi. E, depois, veio o meu arrependimento por não ter, de facto, ligado às autoridades, quando o rapaz me diz que é muito distraído, que ainda não tem a carta definitiva, porque fez exame há menos de um mês, e já é o segundo acidente que tem.

Claro que o carro era do pai, claro que o seguro é pago pelo pai, claro que o responsável por esta enormidade é o pai. Mas porque é que este pai e este rapaz não optaram por tirar a carta depois dos 40?

É que a imaturidade hoje parece prolongar-se no tempo. A dos pais e a dos filhos. E penso bem que o legislador deveria começar a ponderar a hipótese de só permitir fazer a carta de condução a quem tiver mais de 40 anos…