Por Margarida Maria

Lembro-me do dia em que fiz 50 anos. Muitos amigos me diziam que era o princípio da velhice. A verdade é que nunca senti o peso da idade: nem aos 30, nem aos 40, nem aos 50. Senti-o agora, com o meu irmão mais novo.

E passo a explicar: durante toda a vida de que me lembro, os meus anos eram sempre festejados. Se não pelos outros, pelo menos por mim. Recordo-me de ter feito 23 anos e estar sozinha. Estava grávida, mas o meu marido encontrava-se no estrangeiro e eu não tinha família por perto. Mesmo assim, fiz questão de ter um bolo, cantar os parabéns a mim mesma e apagar as velas. A propósito, o bolo estava lindo!

Já tarde, depois do jantar, tocaram à campainha. Era um amigo que, ao ver o bolo, quis saber quem tinha feito anos. Eu!

- E quando?

- Hoje!

Rimo-nos imenso e aprazamos um jantar comemorativo para o dia seguinte.

Mas a questão está aí. Mesmo sozinha, sempre festejei os anos, como festejo e dou graças por cada dia que passa na minha vida.

Mais tarde, disseram-me que as mulheres de 40 anos eram as mais interessantes e eu, aos 38 anos, já dizia que só faltavam dois para fazer 40.

A minha mãe, que lida mal com a idade, ficava horrorizada quando eu dizia essas coisas, mas, na realidade, fazer anos nunca me preocupou e, quando cheguei aos 50, foi com a maior alegria que declarei para todos quantos quisessem ouvir que já cumprira meio século de vida.

Há dias, o meu irmão mais novo fez 50 anos. De repente senti um baque, um murro no estômago: o meu irmão pequenino, o miúdo, já tem 50 anos!

Não sinto o peso da minha idade, mas ao viajar para estar com ele nesse dia tão importante do seu aniversário, vi o filme todo da sua vida e da minha: vi-me a deixar de ser o bebé de toda a gente, tinha eu cinco anos, para passar a ser (supremo consolo!) o bebé do Papá, porque aquele embrulho pequeno ocupava o meu lugar; vi-me a dar-lhe a minha boneca favorita, porque ele precisava da «protecção» que ela me dava todas as noites no meu adormecer; vi-me a seguir cada passo da sua vida escolar; os seus primeiros namoros…

E vi-me, naquela idade em que sente a diferença, tinha eu 17 anos e ele 12, a servir de consolo e confidente.

Quando fui viver para fora da minha cidade, o miúdo era presença assídua em minha casa: aos fins-de-semana, nas férias…

Mais tarde, porque era o «meu» miúdo, foi padrinho da minha filha mais velha.

Nos meus braços chorou sentidamente a morte do nosso Pai e muitas vemos deixamos cair lágrimas dolorosas pela sua falta.

Regozijei-me com o seu final de curso, com o seu casamento, com o nascimento dos seus filhos. Mas era sempre o «meu» miúdo.

Há dias fez 50 anos e eu ainda hoje me interrogo como passou este tempo e como é possível que o pequenito já tenha 50 anos…