Por Margarida Maria

O título deste texto é, como se sabe, (quase) tirado do livro de Gabriel García Márquez, editado em 1981. Mas não é de tão insigne escritor que vamos falar. Vamos falar de uma jovem, de 27 anos, que apareceu morta no dia 23, na sua casa em Londres. Vamos falar da promissora Amy Winehouse, nascida em Setembro de 1983 e cujo fim trágico se adivinhava.

Mas não é a única que, naquela idade, tem uma trágica morte e há mesmo quem, no meio do espectáculo, fale «Clube 27». Vai já longa a lista dos grandes mitos musicais do século passado que morreram com essa idade. Amy Winehouse, cantora de enorme talento e uma vida de excessos, juntou-se ao trágico grupo de que fazem parte Brian Jones (guitarrista britânico encontrado morto na piscina na madrugada de 2 para 3 de Julho de 1969), Jimi Hendrix (guitarrista afro-americano que terá morrido sufocado no próprio vómito depois de ter ingerido um cocktail fatal de soporíferos e vinho tinto no dia 18 de Setembro de 1970), Janis Joplin (a cantora americana foi encontrada morta num quarto de hotel no dia 4 de Outubro de 1970, poucos 15 dias depois de Hendrix, com uma overdose de heroína), Jim Morrison (vocalista dos The Doors morreu no dia 3 de Julho de 1971 em Paris, em consequência de uma crise cardíaca, para uns, e de overdose, para outros), Kurt Cobain (o guitarrista e vocalista dos Nirvana suicidou-se com um tiro no dia 5 de Abril de 1994 na sua casa de Seattle).

Em comum, todos eram pessoas de excessos e com dificuldades na gestão dos seus sucessos. Desconhece-se ainda o que levou à morte de Amy Winehouse, mas de todos os outros é sabido que eram depressivos, consumidores de drogas duras e de álcool, com problemas de auto-estima e perdidos num verdadeiro oceano de estrelas em que não se enquadravam.

Daí o título deste texto: eram mortes quase anunciadas: Amy Winehouse apareceu em público pela última vez na quarta-feira, convidada no concerto de Dionne Bromfield, em Londres, depois de ter cancelado uma digressão de Verão, que incluía uma passagem por Portugal. Um porta-voz da cantora disse que ela só voltaria a actuar quando estivesse «totalmente» recuperada, já que tinha havido diversos problemas nas últimas actuações, sabendo-se que havia dependências graves de álcool e drogas.

Não vamos aqui explanar sobre a arte, a voz incomparável que se perdeu, o caminho que fazia na soul.

O que é necessário é perceber por que havendo toda uma equipa, supostamente de diversas especialidades, em torno de cada um dos elementos deste cada vez mais engrossado «Clube 27», não há ninguém que deite mão em tempo a estes jovens que surgem sempre com a morte anunciada.

Amy não dava entrevistas. Quando o fazia era lacónica, ou de uma sinceridade pouco usual nos dias que correm: socialmente incorrecta. Por isso, desde sempre se soube que não sabia, ou não queria, «embrulhar-se» na fama. Igual a si mesma, limitava-se a ser Amy Winehouse, a jovem inglesa filha de um taxista e de uma farmacêutica, que casou com Blake Fielder-Civil, que conheceu num dos bares que frequentava.

Começaram então as tatuagens, as aparições desregradas, as tragédias de casa/separa. Veio a anorexia, as músicas com maior ou menor sucesso, um estrelato descontrolado em 2006 que, em lugar de que dar paz, a levou a clínicas de desintoxicação.

E quando o seu comportamento foi interpretado como uma estratégia de markting e publicidade, foi premonitória a acusação da mãe à indústria que explorava a filha: «Esta não é a Amy que conheço. É como se a sua vida se tivesse tornado numa actuação. Penso que não vai aguentar».

Como outros, Amy Winehouse não aguentou. Quantos mais não aguentarão para se perceber que há talentos que não podem ser assim desperdiçados?