Por Margarida Maria

A Maria tem 20 anos. Nestas férias foi passar uns dias a uma aldeia do centro do País. Havia uma Feira Medieval que ela não queria perder, nem por nada desta vida. E foi aí que conheceu duas jovens de 12 anos, meninas criadas no campo, que aspiram aos ares poluídos de uma grande cidade.

Contou-me isto hoje, quando fomos às compras e lhe pedi dois minutos para ir comprar cigarros. Sim, eu fumo, mas a minhas filhas não o fazem, felizmente. Não me orgulho de fumar, mas também não me penitencio, verdade seja dita. Todavia, tendo educado as minhas filhas no direito ao livre arbítrio, dei-lhes sempre (ou procurei dar) todas as ferramentas para poderem escolher: é verdade que fumo, mas sou de uma geração em que não eram conhecidos os malefícios do tabaco e em que fumar nos dava estatuto e nos fazia parecer "crescidos". Hoje, com a informação que existe disponível, os jovens só fumam se forem muito estúpidos ou idiotas. Porque fumar deixou de ser cool e passou a ser sinal de falta de inteligência.

Contou-me, pois, a minha filha Maria que estando na Feira Medieval, onde se divertiam vestidas a preceito e com todas as pessoas que ali se encontravam, as duas meninas de 12 anos se abeiraram dela com admiração. Ela é "uma rapariga crescida da cidade".

A Maria tentou explicar-lhes como gosta do campo, como se sente bem naquele ambiente, como é saudável para ela ir ali descansar e passar uns dias, sendo que a família para onde ela vai lhe permite uma vivência real do que é a vida no campo: ela trata dos animais, das roupas, dos tachos e da terra, tudo numa grande sem-cerimónia.

E eis quando uma das pequenas lhe diz: "Daqui a seis anos já posso fumar".

Porquê daí a seis anos? Porque nessa altura ela terá atingido a maior idade e pode «fazer o que quer» e não vê a hora de fugir da aldeia para a grande cidade.

Onde foi que a menina viu isso? Na televisão, onde as jovens fumam e fogem de casa dos pais para terras onde podem fazer o que querem, sem darem satisfações a ninguém.

Ainda bem que a minha filha lhe explicou que na televisão é tudo ficção, que as pessoas não podem fazer o que querem porque, mais tarde ou mais cedo, têm de responder pelos seus actos, que, na vida, as grandes cidades não são sinónimos de sucesso e que as histórias com um fim feliz são mais raras do que podemos pensar.

E deixou a menina a pensar que na cidade se trabalha, se estuda, se assumem responsabilidades e férias são férias como em todo o lado, mas as jovens não vivem propriamente como na televisão, arrastando-se de festa em festa, de almoço em jantar, de cinema em namoros sucessivos, de cigarro na mão. Porque o amanhã existe e não passa por nada disso…