Por Margarida Maria

Arnaldo de Sousa Dantas da Gama nasceu no Porto, no dia 1 de Agosto de 1828. Morreu na mesma cidade em 29 de Agosto de 1869. Alguém sabe quem ele foi? Alguém se lembra dele? Há escritores e escritores. Arnaldo Gama era escritor e tem das páginas mais belas da literatura portuguesa. Ninguém se lembra dele, apesar de, em algum momento, até ter tido livros adoptados no ensino secundário em Portugal.

Lembrei-me hoje de escrever sobre Arnaldo Gama porque ele foi o pioneiro dos romances históricos no nosso País, ainda que se tenha centrado na História da cidade do Porto.

Bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra, exerceu advocacia no Porto e foi redactor do jornal literário A Península e dos jornais Porto e Carta, Conservador e Jornal do Norte, onde sustentou polémicas políticas.

Publicou poesias, contos e romances. Mas distinguiu-se nos romances históricos. Como Camilo Castelo Branco, recebeu de Eugénio Sue os primeiros exemplos para escrever novelas e o Génio do Mal, em quatro volumes (1856/57), foi a sua primeira obra, seguida de Poesias e Contos (1857) e Verdades e Ficções (1859).

Com profundo sentido histórico, respeitando a evocação, os costumes e as situações, tratando com cuidado toda a informação, Arnaldo Gama tornou-se num autor profundamente documentado e habilitado a escrever romances de raro rigor histórico, sobretudo no que respeita à cidade do Porto.

Um motim há cem anos (1861) que se reporta à revolta portuense ao tempo da criação por Pombal da Companhia de Vinhos do Alto Douro, ou O Sargento-mor de Vilar (1863), sobre a tomada do Porto por Soult e o desastre da Ponte das Barcas, e O Segredo do Abade (1864), sobre a resistência do Minho aos invasores, são exemplos desse rigor histórico.

O filho do Baldaia (1866), A Caldeira de Pero Botelho (1867) e Honra ou Loucura (1868) são outros exemplos. Após a sua morte, foram publicados El-Rei Dinheiro e Balio de Leça, este último o único livro adoptado no ensino secundário.

Mas é em A última Dona de S. Nicolau (1864), um romance de rara beleza, que traduz um grande saber de usos e costumes, descrevendo-os de tal modo que leva o leitor a «senti-los». E é uma obra em que apetece pedir: Por favor leiam-na!!!!

Pois, mas isso só seria possível se alguma editora aceitasse reeditar este escritor esquecido. É que, por uma vez, em lugar de livrecos sem qualquer interesse, que são diariamente vistos nos escaparates das livrarias, seria interessante que uma empresa olhasse para o panorama da literatura nacional e revisse os autores esquecidos que têm ainda tanto para dar.