Por Margarida Maria

Os políticos enchem-nos de palavras como crise, economia, finanças, taxas, PIBs e muitas outras coisas. Na rua fala-se da crise, no café fala-se da crise, no emprego fala-se da crise e até em casa, com a família se fala da crise. Ela está aí, instalada, fazendo parte do nosso quotidiano.

Um amigo regressado da Grécia dizia que andou horas em Atenas à procura de um restaurante para poder comer qualquer coisa. E, aterrorizado, explicou que Atenas é uma cidade deserta. «Tudo está fechado, as lojas, os cafés, tudo, mas mesmo tudo. Além disso, não se vêem pessoas nas ruas e, à noite, a cidade está morta».

Na minha rua fecharam três cafés e dois restaurantes, uma sapataria e uma loja de roupa para crianças. E eu fiquei a pensar no relato do meu amigo sobre Atenas. Será que Lisboa vai ficar assim?

Não entendo nada de economia, juro! Mas sei muito de economia doméstica e das compras que faço todos os meses, das contas para pagar, de poupanças, do que posso gastar em extras.

Há dois meses que a minha filha mais nova me disse que precisa de outras calças e há dois meses que lhe respondo que não há dinheiro, porque a electricidade subiu 23 por cento ao IVA e a comida teve um disparo extraordinário. Além disso, o meu salário manteve-se e, embora não tenhamos dívidas, o dinheiro «encurtou».

Pergunto-me se as lojas de calças vão fechar, se os supermercados vão vender menos? E sei que sim, será uma questão de dias. Como vamos então conseguir que o dinheiro gire e o mercado seja activo? Se as pessoas não podem comprar o que necessitam e as lojas não vendem, o que vai acontecer ao sistema económico e financeiro?

Na realidade, os pagadores de impostos são sempre os mesmos: os empregados por conta de outrem. Porque sei que quem passa recibos ainda consegue fugir: basta que leve mais barato sem o recibo e os cidadãos, na mira da sua poupança, aceitam esta situação.

Por tudo isto, quem trabalha a contrato tem mesmo de pagar tudo e quem labora por conta própria - sendo certo que são os que mais recebem - pode continuar a fugir às suas responsabilidades, e que quem paga a factura somos todos os trabalhadores deste País.

Na minha economia doméstica, eu trabalho e gasto nas necessidades da casa. faço parte de um girar do dinheiro e, consequentemente, da economia do País. Mas, quanto mais dinheiro me tiram, menos eu posso gastar e, assim, menos ganham aqueles onde eu sou consumidora. Neste caminho, eu não vou gastar e as lojas vão fechar, porque a maioria dos portugueses ainda são como eu e fazem contas de mesma maneira.

Alguma coisa está mal, muito mal, e não vejo nenhuma alteração neste estado de coisas. Por isso, temo que, num dia destes, alguém venha a Lisboa e diga o que o meu amigo disse no seu regresso de Atenas.