Crónicas

Por Margarida Maria

Numa breve estadia no hospital com uma filha, vi homens e mulheres à espera na zona própria do bloco operatório. Eles conversavam entre si sobre as mais variadas coisas, desde política a futebol. Elas falavam dos seus que estavam a ser operados, ou remetiam-se ao silêncio.

Não sou pai. Sou mãe. Não sei como os pais reagem à dor dos filhos. Mas sei como regem as mães.

Nesse dia percebi a diferença entre as mulheres que tinham no bloco operatório pais, irmãos, outros familiares, ou os filhos.

É que as mães mantinham-se em silêncio, o silêncio de quem sente o corte na sua pele, na sua carne, de quem sente uma cirurgia que está a ser feita num filho. Em todas era visível uma dor maior, um sentir de dor que é Amor.

Por Margarida Maria

Há precisamente um ano morreu um grande amigo. O João Aguiar foi escritor, jornalista e, sobretudo, um grande amigo, daqueles que nos elogiam e consolam, mas também nos dão «nas orelhas».

Dou-me conta que passou um ano sobre aquela manhã de 3 de Junho em que nos telefonaram a dizer que o João tinha partido. Na véspera ele ainda sorria, o olhar meio vazio, a mão magra (muito magra) na do Quim, seu companheiro de vida de mais de 40 anos. E nós, os amigos, impotentes diante do que sabíamos ser uma perda imensa, porque o João não tinha um lugar em nós; ele era um lugar.

Por Margarida Maria

Há plantas que resistem a tudo, como se fossem Amizades eternas, resistentes. Vem isto a propósito de uma planta que me foi oferecida por uma amiga há meia dúzia de anos. Cresceu sempre e alegrou o meu quintal com flores maravilhosas. Sempre a cuidei com todo o carinho, como se da minha amiga, de já muito longa data, se tratasse.

Em determinada altura das nossas vidas, por motivos que nos eram alheios mas que, de algum modo, nos tocaram às duas, houve um afastamento. Ambas queríamos impedi-lo, mas a verdade é que alguma coisa esfriou entre nós e só a (boa, desta vez) teimosia em contrariar a tendência nos obrigava a telefonemas, quase tímidos, para sabermos como ambas estávamos, intuindo que tanta coisa ficava por dizer.

 

Por Margarida Maria

Somos observadores na vida. Vemos o que os outros fazem e até comentamos. O que muitas vezes não pensamos é que também nós somos objecto de observação dos outros. E isso seria importante também para o bom funcionamento do mundo. Termos a atitude certa é essencial, porque, num qualquer dia, seremos nós os observados. E isso acontece quando menos esperamos.

Tirei a carta tardiamente. Por isso, andei, durante muitos anos, em transportes públicos e, do meu lugar elevado, no autocarro eu era a observadora de tudo o que se passava nos automóveis. Vi pessoas que se acariciavam, outras que dormiam no chamado «lugar do morto», outras que limpavam o nariz, outras ainda que se maquilhavam.

Por Margarida Maria

Ao longo da minha vida profissional – sou jornalista – deparei-me com inúmeras situações que me marcaram para sempre. As crianças (graças a Deus que existem em toda a parte!) fazem parte de muitas dessas vivências. E, pelo Mundo fora, elas estão presentes em formas tão diferentes que se torna gritante a violação dos Direitos Humanos e dos Direitos das Crianças no que respeita à igualdade em todos os sentidos.

As notícias vêm e correm mundo: uns têm tanto e outros tão pouco. Na Tailândia o turismo sexual está virado para os menores, mas o mesmo já sucede em países ditos desenvolvidos até na Europa. O Direito à infância parece ter desaparecido e os mais novos envelhecem precocemente num sofrimento sem limites.